90 anos das Filhas da Caridade em Campina Grande: uma história de amor transformado em cuidado

Postado em 12/08/26 às 22:018 minutos de leitura47 views

Presentes em Campina Grande desde 15 de agosto de 1936, as Filhas da Caridade construíram uma história marcada pelo cuidado com os idosos, pela educação das crianças, pela evangelização e por um jeito muito próprio de reconhecer Cristo em quem mais precisa.

Noventa anos é tempo demais para caber numa comemoração. Quando se olha para a história das Filhas da Caridade em Campina Grande, as datas ajudam, claro. Os documentos guardam nomes, acontecimentos e obras que foram surgindo. Mas não dão conta de tudo. Há uma história que ficou nas pessoas: nos idosos que encontraram casa no Instituto São Vicente de Paulo, nas crianças que aprenderam ali suas primeiras letras, nas famílias que passaram por aquela porta e nas próprias Irmãs que fizeram de Campina Grande um lugar para gastar a vida.

Elas chegaram e ficaram

Tudo começou em 15 de agosto de 1936. Naquele dia chegaram à cidade quatro Filhas da Caridade: Irmã Galzy, Irmã Marta, Irmã Ana Maria e Irmã Lucy. O que encontraram estava longe de ser uma obra pronta. Havia poucos recursos e cerca de vinte idosos para cuidar. Era preciso começar quase do chão. E começaram.

Talvez hoje, olhando uma história de 90 anos, seja fácil enxergar apenas aquilo que deu certo. Não foi assim. Houve dificuldade, falta de recursos e preocupação com a manutenção da casa. Só que aquelas primeiras Irmãs traziam consigo uma maneira muito particular de entender a vida religiosa, recebida de São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac. Para elas, o pobre não estava à margem da missão. O pobre era o lugar da missão. Era ali que Cristo esperava ser encontrado e servido.

Já em 1937, apenas um ano depois da chegada, apareceram iniciativas de evangelização e formação, entre elas as Benjaminas, a Cruzada Eucarística, as Filhas de Maria Imaculada e os Congregados Marianos. Mais tarde veio também a Juventude Marial Campinense. Aos poucos, aquela casa que havia começado acolhendo idosos passou a reunir gente, formar pessoas e criar vínculos com a cidade.

E a cidade também entrou nessa história. Quando as dificuldades financeiras apertaram, surgiu a Campanha da Violeta. Campina Grande se mobilizou para ajudar na manutenção do trabalho com os idosos. A campanha atravessou décadas e acabou dizendo muito sobre a relação que se formou entre o Instituto e a população. As Irmãs vieram para cuidar dos pobres, mas, nesse caminho, fizeram outra coisa sem talvez planejarem: ensinaram muita gente a cuidar também.

A missão continuou crescendo. A educação de crianças e jovens ganhou espaço e passou a fazer parte da identidade da instituição. Em 1957, as Irmãs também participaram da história da Faculdade de Serviço Social de Campina Grande, deixando sua marca na formação educacional e social da cidade. O que havia começado com quatro religiosas e um pequeno grupo de idosos já tinha se tornado algo muito maior.

Entre a criança que começa e o idoso que já caminhou tanto

Existe uma cena que talvez explique o Instituto São Vicente de Paulo melhor do que uma lista de obras realizadas. De um lado estão as crianças; do outro, os idosos. Quem entra ali encontra a vida em momentos completamente diferentes. Há quem esteja começando, descobrindo as letras e fazendo planos sem ainda saber direito o tamanho do mundo. E há quem já tenha atravessado quase tudo, carregando no rosto e nas mãos uma história que nem sempre alguém tem tempo de escutar.

Durante décadas, as Irmãs ficaram entre esses dois mundos. Suas mãos tocaram a mão pequena da criança e a mão marcada pelo tempo do idoso. Uma aprendendo a caminhar pela vida; a outra precisando, tantas vezes, apenas de alguém que não a deixasse caminhar sozinha. Talvez seja por isso que a palavra “cuidado” diga tanto sobre esses 90 anos. Porque cuidar, aqui, nunca significou apenas manter uma instituição funcionando.

A espiritualidade vicentina é muito concreta. São Vicente de Paulo, juntamente com Santa Luísa de Marillac, deixou às Filhas da Caridade uma vocação que se realiza no encontro com gente de verdade, especialmente com os pobres. E gente de verdade dá trabalho. Precisa comer, adoece, sente saudade, repete histórias, às vezes reclama. Uma criança precisa aprender, ser corrigida, tentar de novo. Um idoso pode precisar de ajuda justamente naquelas coisas mais simples que durante a vida inteira fez sozinho. Há dias alegres e há dias muito cansativos. É aí que a caridade deixa de ser uma palavra bonita e vira serviço.

Os documentos conseguem dizer quando as Irmãs chegaram, registrar a abertura de uma obra, o início de uma campanha, uma turma de alunos ou uma celebração importante. Ainda bem. Precisamos dessas datas para não perder a memória. Mas há coisas que nenhum arquivo conseguiu guardar. Não sabemos quantas vezes uma Irmã se sentou ao lado da cama de um idoso que estava com medo, quantas crianças receberam um carinho num dia difícil, quantas refeições foram servidas, quantas roupas cuidadas, quantos remédios administrados, quantas conversas demoradas aconteceram quando alguém simplesmente precisava ser ouvido. Também não sabemos quantas vezes alguém entrou na Capela do Instituto carregando uma preocupação e saiu dali um pouco mais em paz.

Essas coisas quase nunca entram nas fotografias oficiais. Mas são elas que sustentam uma obra durante 90 anos.

Uma memória que não cabe nos arquivos

Celebrar esta data é também lembrar as Irmãs cujos nomes talvez a geração de hoje já não conheça. Depois de Irmã Galzy, Irmã Marta, Irmã Ana Maria e Irmã Lucy, vieram muitas outras. Algumas passaram alguns anos em Campina Grande; outras deixaram aqui boa parte da própria vida. Houve Irmãs que chegaram jovens e envelheceram servindo. Nossa homenagem a tão querida Ir. Bernadete e, na pessoa dela, todas as irmãs. Houve aquelas que cuidaram de pessoas que depois partiram. E houve também Irmãs que partiram primeiro.

Cada uma levou consigo uma coleção de rostos, nomes, histórias e afetos que não caberia em arquivo algum. É bonito pensar que aquilo que a memória humana esqueceu, Deus não esqueceu.

Campina Grande de 1936 também não existe mais. A cidade cresceu, ganhou novos bairros, novos prédios, novas instituições. Mudaram as famílias, a educação, a maneira de viver e até as formas de pobreza. O Instituto atravessou todas essas mudanças e chegou aos 90 anos. Mas uma obra assim não pode viver apenas daquilo que fez no passado. Talvez o maior respeito à memória das primeiras Irmãs seja continuar olhando para quem precisa hoje com a mesma inquietação com que elas olharam para aqueles idosos encontrados em 1936.

O carisma vicentino só permanece vivo quando volta a acontecer. Quando uma criança é educada sem ser tratada apenas como um número. Quando um idoso é chamado pelo nome. Quando sua história não é tratada como coisa velha. Quando alguém tem paciência de escutar. Quando o pobre deixa de ser estatística e volta a ser irmão. É assim que São Vicente continua passando por esta casa. É assim que Santa Luísa permanece por perto. E é assim que o Evangelho continua sendo escrito, não com tinta, mas com vidas.

Noventa anos depois, uma palavra: obrigado

Depois de 90 anos, talvez a palavra mais adequada não seja solene. É uma palavra que usamos todos os dias e que, quando é verdadeira, basta: obrigado.

Obrigado às primeiras quatro Irmãs, que chegaram sem encontrar facilidades e começaram mesmo assim. Às que vieram depois e receberam a missão das mãos de outras. Às que ensinaram, cuidaram dos idosos, administraram tempos difíceis e rezaram quando parecia não haver solução. Às que fizeram aquele trabalho miúdo, repetitivo e escondido que quase ninguém percebe, mas sem o qual nenhuma casa permanece de pé. Obrigado também às que já partiram e às que estão aqui hoje, carregando uma história que não começou com elas e que, esperamos, também não terminará com elas.

As Filhas da Caridade não passaram simplesmente por Campina Grande. Depois de 90 anos, já não é possível contar a história desta obra sem contar um pouco da história da própria cidade. Há idosos que tiveram aqui sua casa. Há crianças que cresceram aqui. Há famílias que nunca esqueceram uma Irmã. Há antigos alunos que ainda reconhecem aqueles corredores. E há gente que talvez nem saiba o nome de quem lhe fez bem, mas leva consigo alguma coisa recebida ali. Isso é uma herança difícil de medir.

Em 15 de agosto de 1936, quatro mulheres chegaram a Campina Grande. Não sabiam tudo o que viria depois. Não poderiam saber. Encontraram cerca de vinte idosos, poucos recursos e muito trabalho pela frente. E ficaram.

Noventa anos depois, talvez seja isso que mais comove: elas ficaram. Outras vieram depois e também ficaram. Perto da criança, perto do idoso, perto do pobre. Ficaram quando servir trazia alegria e quando era simplesmente cansativo. Ficaram porque, na escola de São Vicente e Santa Luísa, aprenderam que existe uma maneira muito concreta de dizer a alguém que Deus não o esqueceu: cuidar dele.

Por tudo isso, Campina Grande tem uma dívida que não se paga. Só se agradece.

Obrigado, Irmãs, por estes 90 anos. Obrigado por terem feito desta cidade também a casa de vocês. E, sobretudo, obrigado por terem ajudado tanta gente a sentir que também tinha uma casa.

Por: Pe. Márcio Henrique Mendes Fernandes

Pároco Local



Comentários (0)