90 anos das Filhas da Caridade em Campina Grande: uma história de amor transformado em cuidado
Presentes
em Campina Grande desde 15 de agosto de 1936, as Filhas da Caridade construíram
uma história marcada pelo cuidado com os idosos, pela educação das crianças,
pela evangelização e por um jeito muito próprio de reconhecer Cristo em quem
mais precisa.
Noventa
anos é tempo demais para caber numa comemoração. Quando se olha para a história
das Filhas da Caridade em Campina Grande, as datas ajudam, claro. Os documentos
guardam nomes, acontecimentos e obras que foram surgindo. Mas não dão conta de
tudo. Há uma história que ficou nas pessoas: nos idosos que encontraram casa no
Instituto São Vicente de Paulo, nas crianças que aprenderam ali suas primeiras
letras, nas famílias que passaram por aquela porta e nas próprias Irmãs que
fizeram de Campina Grande um lugar para gastar a vida.
Elas
chegaram e ficaram
Tudo
começou em 15 de agosto de 1936. Naquele dia chegaram à cidade quatro Filhas da
Caridade: Irmã Galzy, Irmã Marta, Irmã Ana Maria e Irmã Lucy. O que encontraram
estava longe de ser uma obra pronta. Havia poucos recursos e cerca de vinte
idosos para cuidar. Era preciso começar quase do chão. E começaram.
Talvez
hoje, olhando uma história de 90 anos, seja fácil enxergar apenas aquilo que
deu certo. Não foi assim. Houve dificuldade, falta de recursos e preocupação
com a manutenção da casa. Só que aquelas primeiras Irmãs traziam consigo uma
maneira muito particular de entender a vida religiosa, recebida de São Vicente
de Paulo e Santa Luísa de Marillac. Para elas, o pobre não estava à margem da
missão. O pobre era o lugar da missão. Era ali que Cristo esperava ser
encontrado e servido.
Já
em 1937, apenas um ano depois da chegada, apareceram iniciativas de evangelização
e formação, entre elas as Benjaminas, a Cruzada Eucarística, as Filhas de Maria
Imaculada e os Congregados Marianos. Mais tarde veio também a Juventude Marial
Campinense. Aos poucos, aquela casa que havia começado acolhendo idosos passou
a reunir gente, formar pessoas e criar vínculos com a cidade.
E
a cidade também entrou nessa história. Quando as dificuldades financeiras
apertaram, surgiu a Campanha da Violeta. Campina Grande se mobilizou para
ajudar na manutenção do trabalho com os idosos. A campanha atravessou décadas e
acabou dizendo muito sobre a relação que se formou entre o Instituto e a
população. As Irmãs vieram para cuidar dos pobres, mas, nesse caminho, fizeram
outra coisa sem talvez planejarem: ensinaram muita gente a cuidar também.
A
missão continuou crescendo. A educação de crianças e jovens ganhou espaço e
passou a fazer parte da identidade da instituição. Em 1957, as Irmãs também
participaram da história da Faculdade de Serviço Social de Campina Grande,
deixando sua marca na formação educacional e social da cidade. O que havia
começado com quatro religiosas e um pequeno grupo de idosos já tinha se tornado
algo muito maior.
Entre
a criança que começa e o idoso que já caminhou tanto
Existe
uma cena que talvez explique o Instituto São Vicente de Paulo melhor do que uma
lista de obras realizadas. De um lado estão as crianças; do outro, os idosos.
Quem entra ali encontra a vida em momentos completamente diferentes. Há quem
esteja começando, descobrindo as letras e fazendo planos sem ainda saber
direito o tamanho do mundo. E há quem já tenha atravessado quase tudo,
carregando no rosto e nas mãos uma história que nem sempre alguém tem tempo de
escutar.
Durante
décadas, as Irmãs ficaram entre esses dois mundos. Suas mãos tocaram a mão
pequena da criança e a mão marcada pelo tempo do idoso. Uma aprendendo a
caminhar pela vida; a outra precisando, tantas vezes, apenas de alguém que não
a deixasse caminhar sozinha. Talvez seja por isso que a palavra “cuidado” diga
tanto sobre esses 90 anos. Porque cuidar, aqui, nunca significou apenas manter
uma instituição funcionando.
A
espiritualidade vicentina é muito concreta. São Vicente de Paulo, juntamente
com Santa Luísa de Marillac, deixou às Filhas da Caridade uma vocação que se
realiza no encontro com gente de verdade, especialmente com os pobres. E gente
de verdade dá trabalho. Precisa comer, adoece, sente saudade, repete histórias,
às vezes reclama. Uma criança precisa aprender, ser corrigida, tentar de novo.
Um idoso pode precisar de ajuda justamente naquelas coisas mais simples que
durante a vida inteira fez sozinho. Há dias alegres e há dias muito cansativos.
É aí que a caridade deixa de ser uma palavra bonita e vira serviço.
Os
documentos conseguem dizer quando as Irmãs chegaram, registrar a abertura de
uma obra, o início de uma campanha, uma turma de alunos ou uma celebração
importante. Ainda bem. Precisamos dessas datas para não perder a memória. Mas
há coisas que nenhum arquivo conseguiu guardar. Não sabemos quantas vezes uma
Irmã se sentou ao lado da cama de um idoso que estava com medo, quantas
crianças receberam um carinho num dia difícil, quantas refeições foram
servidas, quantas roupas cuidadas, quantos remédios administrados, quantas
conversas demoradas aconteceram quando alguém simplesmente precisava ser
ouvido. Também não sabemos quantas vezes alguém entrou na Capela do Instituto
carregando uma preocupação e saiu dali um pouco mais em paz.
Essas
coisas quase nunca entram nas fotografias oficiais. Mas são elas que sustentam
uma obra durante 90 anos.
Uma
memória que não cabe nos arquivos
Celebrar
esta data é também lembrar as Irmãs cujos nomes talvez a geração de hoje já não
conheça. Depois de Irmã Galzy, Irmã Marta, Irmã Ana Maria e Irmã Lucy, vieram
muitas outras. Algumas passaram alguns anos em Campina Grande; outras deixaram
aqui boa parte da própria vida. Houve Irmãs que chegaram jovens e envelheceram
servindo. Nossa homenagem a tão querida Ir. Bernadete e, na pessoa dela, todas
as irmãs. Houve aquelas que cuidaram de pessoas que depois partiram. E houve
também Irmãs que partiram primeiro.
Cada
uma levou consigo uma coleção de rostos, nomes, histórias e afetos que não
caberia em arquivo algum. É bonito pensar que aquilo que a memória humana
esqueceu, Deus não esqueceu.
Campina
Grande de 1936 também não existe mais. A cidade cresceu, ganhou novos bairros,
novos prédios, novas instituições. Mudaram as famílias, a educação, a maneira
de viver e até as formas de pobreza. O Instituto atravessou todas essas
mudanças e chegou aos 90 anos. Mas uma obra assim não pode viver apenas daquilo
que fez no passado. Talvez o maior respeito à memória das primeiras Irmãs seja
continuar olhando para quem precisa hoje com a mesma inquietação com que elas
olharam para aqueles idosos encontrados em 1936.
O
carisma vicentino só permanece vivo quando volta a acontecer. Quando uma
criança é educada sem ser tratada apenas como um número. Quando um idoso é
chamado pelo nome. Quando sua história não é tratada como coisa velha. Quando
alguém tem paciência de escutar. Quando o pobre deixa de ser estatística e
volta a ser irmão. É assim que São Vicente continua passando por esta casa. É
assim que Santa Luísa permanece por perto. E é assim que o Evangelho continua
sendo escrito, não com tinta, mas com vidas.
Noventa
anos depois, uma palavra: obrigado
Depois
de 90 anos, talvez a palavra mais adequada não seja solene. É uma palavra que
usamos todos os dias e que, quando é verdadeira, basta: obrigado.
Obrigado
às primeiras quatro Irmãs, que chegaram sem encontrar facilidades e começaram
mesmo assim. Às que vieram depois e receberam a missão das mãos de outras. Às
que ensinaram, cuidaram dos idosos, administraram tempos difíceis e rezaram
quando parecia não haver solução. Às que fizeram aquele trabalho miúdo,
repetitivo e escondido que quase ninguém percebe, mas sem o qual nenhuma casa
permanece de pé. Obrigado também às que já partiram e às que estão aqui hoje,
carregando uma história que não começou com elas e que, esperamos, também não
terminará com elas.
As
Filhas da Caridade não passaram simplesmente por Campina Grande. Depois de 90
anos, já não é possível contar a história desta obra sem contar um pouco da
história da própria cidade. Há idosos que tiveram aqui sua casa. Há crianças
que cresceram aqui. Há famílias que nunca esqueceram uma Irmã. Há antigos
alunos que ainda reconhecem aqueles corredores. E há gente que talvez nem saiba
o nome de quem lhe fez bem, mas leva consigo alguma coisa recebida ali. Isso é
uma herança difícil de medir.
Em
15 de agosto de 1936, quatro mulheres chegaram a Campina Grande. Não sabiam
tudo o que viria depois. Não poderiam saber. Encontraram cerca de vinte idosos,
poucos recursos e muito trabalho pela frente. E ficaram.
Noventa
anos depois, talvez seja isso que mais comove: elas ficaram.
Outras vieram depois e também ficaram. Perto da criança, perto do idoso, perto
do pobre. Ficaram quando servir trazia alegria e quando era simplesmente
cansativo. Ficaram porque, na escola de São Vicente e Santa Luísa, aprenderam
que existe uma maneira muito concreta de dizer a alguém que Deus não o
esqueceu: cuidar dele.
Por
tudo isso, Campina Grande tem uma dívida que não se paga. Só se agradece.
Obrigado,
Irmãs, por estes 90 anos. Obrigado por terem feito desta cidade também a casa
de vocês. E, sobretudo, obrigado por terem ajudado tanta gente a sentir que
também tinha uma casa.
Por: Pe. Márcio Henrique Mendes Fernandes
Pároco Local







