Fé e Emoção Marcam Dedicação do Altar e da Igreja do Santuário de Nossa Senhora dos Milagres em São João do Cariri

Atualizado em 05/05/26 às 23:0915 minutos de leitura66 views

A noite desta terça-feira, 5 de maio, entrou para a história do povo de São João do Cariri. O Santuário de Nossa Senhora dos Milagres viveu um dos momentos mais importantes de sua caminhada de fé com a solene celebração de dedicação da Igreja e do Altar da matriz.

A celebração foi presidida pelo Bispo Diocesano, Dom Dulcênio Fontes de Matos, que conduziu o rito de dedicação diante de um santuário completamente tomado por fiéis. A missa foi concelebrada pelo Administrador Paroquial, Padre Humberto, juntamente com outros padres. Diáconos, Seminaristas, autoridades civis e representantes da comunidade também participaram da celebração, que transformou a “Cidade da Fé” em um verdadeiro cenário de devoção e gratidão.

Durante a cerimônia, marcada por símbolos litúrgicos e momentos de intensa espiritualidade, Dom Dulcênio realizou a unção do altar e das paredes da igreja, rito que representa a consagração definitiva daquele espaço para o culto divino. Em um dos momentos mais significativos da noite, o bispo introduziu no altar a relíquia de São Francisco Xavier, composta por um fragmento de sua pele, gesto que recorda a comunhão da Igreja com os santos e fortalece a ligação espiritual da comunidade com a tradição cristã.

A celebração ganhou ainda mais significado por acontecer no mesmo período em que São João do Cariri comemora os 223 anos de sua fundação. A coincidência da data reforçou a união entre a história da cidade e a fé do povo caririzeiro, tão marcada pela devoção a Nossa Senhora dos Milagres.

Homilia

A homilia destacou o profundo significado espiritual da celebração. O bispo afirmou que a dedicação do templo vai além da consagração de um prédio: representa a presença viva de Deus no meio do povo.

“Amados filhos e filhas, porção eleita do rebanho do Senhor nesta terra de sol e de fé, hoje, as pedras de São João do Cariri não apenas testemunham a história, elas cantam. Estamos reunidos na “Cidade da Fé” para um ato que transcende o tempo: a Dedicação deste Santuário e de seu Altar. Ao celebrarmos este rito junto à fundação de nossa cidade, não estamos apenas olhando para o passado, mas cimentando o futuro sobre a Rocha que é o Cristo”, iniciou.

Ao refletir sobre o Evangelho de Zaqueu, o bispo comparou o santuário ao sicômoro onde o publicano subiu para ver Jesus. Segundo Dom Dulcênio, o templo se torna o lugar onde o povo encontra o Senhor e acolhe sua presença. O altar foi apresentado como símbolo do próprio Cristo, fonte de força e renovação para os fiéis.

“Há uma exegese profunda que liga este encontro à dedicação deste Templo. Zaqueu, em sua busca, sobe em uma árvore para ver a Vida passar; este Santuário, erguido com o suor e a devoção do povo caririzeiro, é o nosso sicômoro espiritual. [...] O Altar que aqui se levanta não é apenas um móvel de pedra; ele é, o próprio Cristo, a Pedra Angular que sustenta a fé desta região. No Cariri, onde a terra muitas vezes nos desafia com a aridez, este Altar é a fonte de água viva”, refletiu.

A homilia também ressaltou a importância de Nossa Senhora dos Milagres para a fé do povo do Cariri. Dom Dulcênio apresentou Maria como exemplo de acolhida e entrega a Deus, lembrando que ela conduz os fiéis ao altar e à Eucaristia.

“Nossa Senhora dos Milagres, tão amada e entranhada na alma paraibana, é quem nos ensina a ser Templo. Se o Altar sustenta o Sacrifício, Maria sustentou em seus braços o Cordeiro. Ela é a “Porta do Céu” e a “Mãe da Consolação”. Para o povo do Cariri, Maria não é uma figura distante, mas a vizinha, a mãe, a protetora que conhece cada prece sussurrada neste sertão”, pregou.

O bispo explicou que o santuário representa a Igreja viva, aberta a todos os que procuram Deus. Assim, o templo foi definido como um “farol” de fé para o Cariri paraibano.

“Este Santuário, ao ser dedicado, torna-se um farol para o Cariri Paraibano. Ele deve refletir a transparência do cristal; quem entra aqui deve conseguir enxergar a Deus através da liturgia, do acolhimento e da caridade. A “Cidade da Fé” é, por definição, uma cidade de portas abertas para o encontro com o Divino”.

Encerrando a homilia, Dom Dulcênio convidou os fiéis a viverem uma verdadeira conversão, e destacou que cada cristão é chamado a tornar-se “altar vivo”, testemunhando a fé através da caridade, da santidade e da esperança no cotidiano.

“Neste Santuário, sob o olhar da Senhora dos Milagres, não buscamos apenas o cumprimento de preceitos, mas uma conversão que nos torne, nós mesmos, altares vivos. Que o Senhor, que hoje toma posse desta casa de pedra, tome posse definitiva de vossas vidas, para que a alegria de ser a “Cidade da Fé” se transforme em testemunho de caridade e santidade em cada recanto deste nosso Cariri”, findou.

Por: Ascom
Fotos: Pascom Paroquial

 Confira a Homilia na íntegra:

Amados filhos e filhas, porção eleita do rebanho do Senhor nesta terra de sol e de fé, hoje, as pedras de São João do Cariri não apenas testemunham a história, elas cantam. Estamos reunidos na “Cidade da Fé” para um ato que transcende o tempo: a Dedicação deste Santuário e de seu Altar. Ao celebrarmos este rito junto à fundação de nossa cidade, não estamos apenas olhando para o passado, mas cimentando o futuro sobre a Rocha que é o Cristo.

A Palavra de Deus nos oferece a chave para entender a magnitude do que realizamos hoje. No Evangelho, encontramos Jesus em Jericó, cruzando o caminho de Zaqueu. Há uma exegese profunda que liga este encontro à dedicação deste Templo. Zaqueu, em sua busca, sobe em uma árvore para ver a Vida passar; este Santuário, erguido com o suor e a devoção do povo caririzeiro, é o nosso sicômoro espiritual. Mas notem o detalhe teológico: não foi Zaqueu quem convidou Jesus; foi o Senhor quem, olhando para cima, disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.

A Dedicação deste Santuário é a resposta pública a esse desejo de Deus. Ao ungirmos estas paredes e este Altar, estamos dizendo: “Senhor, a casa está pronta. Ficai conosco!”. O Altar que aqui se levanta não é apenas um móvel de pedra; ele é, o próprio Cristo, a Pedra Angular que sustenta a fé desta região. No Cariri, onde a terra muitas vezes nos desafia com a aridez, este Altar é a fonte de água viva. É dele que emana a força para que o povo não desanime nas secas da vida.

E como falar deste Altar sem olhar para Aquela que foi o Altar escolhido para Deus na terra? Nossa Senhora dos Milagres, tão amada e entranhada na alma paraibana, é quem nos ensina a ser Templo. Se o Altar sustenta o Sacrifício, Maria sustentou em seus braços o Cordeiro. Ela é a “Porta do Céu” e a “Mãe da Consolação”. Para o povo do Cariri, Maria não é uma figura distante, mas a vizinha, a mãe, a protetora que conhece cada prece sussurrada neste sertão. A devoção à Senhora dos Milagres é o que dá a cor e o calor à fé desta cidade. Ela nos conduz ao Altar, pois sabe que é ali que seus filhos encontram o alimento que não perece.

O Missal, na oração de dedicação, nos lembra que este lugar é imagem da Igreja, a Esposa de Cristo. Quando o salmista e o nosso povo cantam: “O passarinho encontrou agasalho pra seus pequeninos, o teu Altar, ó Senhor, é abrigo pros teus peregrinos!”, estamos proclamando uma verdade teológica vivida: o Santuário é o ninho do povo de Deus. No Cariri, onde a andorinha busca o frescor das águas, a alma do fiel busca o frescor da Eucaristia. Encontramos aqui o Deus Forte que se faz pequeno no pão para nos tornar grandes na caridade.

Meus amados, ao dedicarmos este Altar, estamos dedicando as vossas vidas. Que cada vez que vocês entrarem neste Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, sintam o mesmo que Zaqueu sentiu: a alegria da salvação que entra em vossas casas. Que este Altar seja o porto seguro onde deixamos nossas dores e de onde levamos a esperança.

Por isso, ao iniciarmos este rito, a nossa oração se eleva ao Pai com as palavras da própria Igreja na Oração da liturgia de Dedicação: “Ó Deus, que todos os anos renovais o dia da consagração desta vossa casa, ouvi as preces do vosso povo e fazei que aqui vos sirvam sempre com pureza de coração e alcancem plenamente a redenção”. Vejam que beleza de súplica: pedimos a “pureza de coração” para servir. Neste Santuário, sob o olhar da Senhora dos Milagres, não buscamos apenas o cumprimento de preceitos, mas uma conversão que nos torne, nós mesmos, altares vivos. Que o Senhor, que hoje toma posse desta casa de pedra, tome posse definitiva de vossas vidas, para que a alegria de ser a “Cidade da Fé” se transforme em testemunho de caridade e santidade em cada recanto deste nosso Cariri.

A reflexão que o Livro do Apocalipse nos traz é fundamental para compreender o que estamos realizando é o convite para mergulhar na profundidade teológica desta visão de João, que não é apenas uma descrição de um futuro distante, mas a realidade que este Santuário de Nossa Senhora dos Milagres passa a representar aqui na terra.

Primeiro, como A Esposa e a Cidade (v. 9b-10) O texto começa com o convite de um dos sete anjos: “Vem, vou mostrar-te a Noiva, a Esposa do Cordeiro”. Aqui,o anjo promete mostrar uma mulher (a Esposa), mas João vê uma cidade (a Jerusalém Celeste). Isso nos ensina que a Igreja não é apenas uma organização ou um prédio, mas um organismo vivo, uma comunidade de pessoas unidas pelo amor nupcial a Cristo. Ao dedicarmos este templo em São João do Cariri, estamos afirmando que este lugar é o leito nupcial onde o Cordeiro se une ao seu povo através da Eucaristia. A cidade que João vê “desce do céu”, indicando que a santidade deste lugar não vem de nossas mãos, mas é um presente da glória de Deus que repousa sobre nós.

Segundo, como A Glória e a Luz (v. 11) João descreve a cidade como tendo a glória de Deus e um brilho comparável a pedras preciosas, como o jaspe cristalino. Na exegese bíblica, o brilho evoca a luz dos astros. Este Santuário, ao ser dedicado, torna-se um farol para o Cariri Paraibano. Ele deve refletir a transparência do cristal; quem entra aqui deve conseguir enxergar a Deus através da liturgia, do acolhimento e da caridade.

Terceiro, como As Muralhas e as Portas (v. 12-13) A descrição das muralhas altas e das doze portas com os nomes das doze tribos de Israel simboliza segurança e universalidade. As Muralhas: Não servem para isolar, mas para proteger o que é sagrado. O Santuário é o refúgio onde o mundo não pode corromper a paz do fiel. As Portas: Três para cada ponto cardeal (Norte, Sul, Leste, Oeste). Isso indica que a salvação é aberta a todos. O povo que peregrina de todas as partes do Cariri encontra aqui uma porta aberta. A “Cidade da Fé” é, por definição, uma cidade de portas abertas para o encontro com o Divino.

Por fim, como Os Fundamentos e os Apóstolos (v. 14), a muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam os doze nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro. Esta é a base da nossa fé: a Apostolicidade. Este Altar que ungiremos hoje não flutua no vazio; ele está fincado na tradição que recebemos dos Apóstolos. Quando vocês, meus filhos, sustentam a fé nesta terra, vocês estão sobre esses fundamentos. O Altar é o lugar onde a sucessão apostólica se torna visível na celebração do memorial do Senhor. Ao unirmos esta exegese à nossa realidade, percebemos que o Santuário de Nossa Senhora dos Milagres é a concretização local da Jerusalém Celeste.

Se a cidade de João tem doze fundamentos, a fé de São João do Cariri tem em Maria, sob o título dos Milagres, o seu “solo fértil”. Ela, que é a “Filha de Sião” por excelência, é quem nos introduz nesta Cidade da Fé. Ao dedicarmos este templo, estamos dizendo que o Cariri não é um lugar esquecido, mas um pedaço da Jerusalém que desce do céu para abrigar a “andorinha e o passarinho” — cada um de vós que busca no altar o agasalho para a alma.

Pela intercessão da Senhora dos Milagres, declaro consagrado este espaço para a glória de Deus e para o refúgio de seus filhos. São João do Cariri, Cidade da Fé, levanta os teus olhos: o teu Senhor habita no meio de ti!


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