Em Zabelê, fé e devoção marcam o encerramento da Festa de Nossa Senhora das Dores

Postado em 17/09/21 às 23:016 minutos de leitura712 views


O sol se põe por sobre o horizonte caririzeiro, abaixando-se lentamente, como em um gesto humilde, para ceder a vez à lua crescente. "Para que o homem suba às sumas alturas, desce Deus do Céu para as criaturas. Com os raios claros do Sol da Justiça resplandece a Virgem dando ao Sol cobiça". Maria e Jesus, Mãe e Filho semeando juntos fé e devoção no solo de Zabelê, no extremo-sul do estado da Paraíba, território da Diocese de Campina Grande nas fronteiras com o vasto Pernambuco.

A rua se enche de cadeiras, de fiéis e das melodias do ministério de música Nossa Senhora das Graças em conjunto com a banda de pífanos. A tarde chega ao fim, abrindo as cortinas da noite de 15 de setembro de 2021 para o encerramento das festividades de Nossa Senhora das Dores.

Dez dias de celebrações eucarísticas seguem rumo à memória local, sendo esta a primeira vez, em 72 anos de existência da comunidade religiosa, que se celebra à Virgem das Dores em setembro, e não nas últimas semanas de outubro, como feito até ano passado em alusão ao dia da chegada da imagem. Mãos piedosas a tocam no interior da capela pertencente à Paróquia de São Sebastião, localizada no município vizinho de São Sebastião do Umbuzeiro. O olhar da mãe conforta estes filhos, o mesmo que observara o sofrimento e a morte do Filho na Cruz.

Nesta terra vermelha e infinita abaixo dos pés e dos calçamentos estão marcadas as pegadas, os sonhos e as lutas do povo zabelense, por entre os calvários e as manjedouras da vida. Vermelho pedaço de chão como o coração de Nossa Senhora das Dores, coração transpassado por sete espadas.

As ondas de um mar de amarguras levaram Maria José Oliveira muitas vezes ao chão. Pelo poder daquela que carrega em seu nome de batismo, lhe foi concedida a graça de manter-se de pé constantemente.




Mãe de três jovens meninos, ela assistiu o caçula, de 13 anos, ser classificado como mudo por médicos que afirmavam que palavra alguma jamais sairia de sua boca. Estavam enganados, pois hoje ele, sob o intermédio da Virgem das Dores, fala aos quatro ventos sobre a misericórdia de Deus. Entre tantas lutas, ela ainda clama à sua intercessora que derrame chuvas de curas sobre o filho de 15, em meio aos combates da alma, e que semeie frutos também sob os caminhos do mais velho, de 24 anos.

"Eu conheci Deus nessa igreja. Eu peço sempre força à Nossa Senhora das Dores", sublinha Maria José. Em gratidão, realiza novenas todos os anos em sua casa em homenagem à patrona de Zabelê. Mantendo ambas as mãos abertas e juntas, a mulher de 46 anos acrescenta: "Eu não tenho celular, porque o meu celular é a Bíblia, a palavra de Deus".

João Batista de Souza carrega no peito a imagem de Nossa Senhora das Dores e a certeza de ter dado aos quatro filhos a maior das heranças em vida: uma fé autêntica. Sua voz se prepara para servir no coral da missa, ao lado de mais de dez outros cantores e cantoras, a mesma voz que diz não saber explicar os mistérios de Deus, apenas vivê-los. Seus 63 anos são uma inteira doação ao Pai. "Eu não oro apenas por minha família. Eu oro por todas", comenta.

Nas palmas e na alegria, tem início a celebração eucarística. "Nossa Senhora das Dores, / Mãe de Deus e Mãe do povo, / nos caminhos da esperança, / com fé cantemos seus louvores". Sob o Presbitério se fazem presentes o Padre Marcos Souza, pároco de São Sebastião do Umbuzeiro/PB e Zabelê/PB, o Padre Ednaldo Gomes, vigário paroquial de Esperança/PB, e o seminarista Elthon. O ano de 2021 registra, por decreto, o dia 15 de setembro como feriado religioso em Zabelê.

"Em meio à dor que Nossa Senhora vivia, estava presente a fé, a esperança, a confiança de que o seu filho amado Jesus Cristo ressuscitaria. A Mãe do Céu tinha essa convicção. Mas ela também viveu a dor, por isso que ela é a Mãe das Dores. Ela sentiu a dor de ver seu filho se entregando, mas também sentiu a confiança, porque sabia que naquele momento estávamos sendo salvos". As palavras de Padre Ednaldo Gomes evangelizaram sobre o amor de Maria, e em suas vestes sacerdotais se estampava a imagem de Nossa Senhora das Graças.

Cinco crianças, sendo três meninos e duas meninas, são apresentadas no Altar para Deus e para as centenas de fiéis espalhados pela rua. Autoridades políticas e visitantes de outras cidades trazem de fora olhares de admiração ao que se celebra.

Em sua primeira edição no mês de setembro, a Festa de Nossa Senhora das Dores superou todas as expectativas do Padre Marcos Souza. O coração sacerdotal reflete gratidão, sorrisos satisfeitos e lágrimas dignas do ministério de quem aprende a lidar com as espadas que o dia a dia da missão reserva. "Quem planta, cuida; quem cuida, colhe; quem colhe, partilha. Quem caminha, alcança; quem corre, cansa", concluiu com estes dois ensinamentos as suas considerações sobre os dias de festa.

Em Zabelê a Paraíba adquire cores, faunas, floras, montes, vales e tons de fé, como em um verdadeiro cenário bíblico com o rosto do Cariri paraibano. A capela da cidade de quase 3 mil habitantes revela imponentes traços holandeses. O menor dos barulhos das metrópoles não ousa chegar aqui, pois nem a distância nem a receptividade calorosa do povo o permitem.

Todos os que provaram do banquete da Eucaristia se saciam e fazem a festa atingir o ápice da fé católica. Oficialmente está terminada a Festa de Nossa Senhora das Dores 2021, mas ainda é festa no coração de cada alma esposa com o Noivo celestial.

Por Luiz Felipe Bolis
Fotos e vídeos de Pascom Nossa Senhora das Dores/Zabelê e Luiz Felipe Bolis

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